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09 de novembro de 2021

Investimentos em infraestrutura indicam superação de velhos gargalos de logística e distribuição no RS

Por terra, água e ar, limitações reduzem a competitividade e fazem a economia gaúcha deixar de incorporar o equivalente a R$ 96 bilhões anualmente  

 

Imagine uma economia que movimenta cerca de R$ 450 bilhões, mas deixa de incorporar outros R$ 96 bilhões, diluídos em custos adicionais, prejuízos e falta de competitividade. Essa é a radiografia do Rio Grande do Sul quando o assunto é distribuição e logística.

Todos os anos, de acordo com dados da Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura (Camaralog), o Estado joga fora o equivalente a 21,5% do Produto Interno Bruto (PIB) por conta da alta concentração do transporte em rodovias e da falta de diversificação de modais. Esse é o tamanho do custo logístico gaúcho e a raiz de um problema nacional, que, por aqui, revela características ainda mais peculiares.

Diante do cenário, Paulo Menzel, presidente da entidade, explica que a economia, seja qual for, é movida “em cima de infraestrutura”. E complementa: é o sistema logístico que faz os bens e serviços caminharem melhor ou pior:

— Quando está ruim, ou há décadas atrasado, paga-se o preço por nada fazer. Produzir altos custos logísticos parece ser a nossa especialidade.

Parte desses gargalos ficam evidentes com uma rápida análise da atual matriz logística. No Brasil, as rodovias respondem por 65% do volume de cargas. No Rio Grande do Sul, onde apenas 7,4% dos 156,8 mil quilômetros é pavimentado, a dependência de estradas chega a 88%.

As discrepâncias não param aí. Com uma das maiores áreas alagadas do país, o Estado usa somente 766 quilômetros aquaviários, que representam 3% dos transportes anuais. Sobre trilhos, a história se repete. De 3,1 mil quilômetros disponíveis, só 2,1 mil estão ativos e movimentam 6% das cargas.

A composição afeta em cheio a eficiência e a competitividade. No RS, com 12% das rodovias duplicadas, são raros os trechos que comportam rodotrens, com capacidade para 74 toneladas — um terço superior aos bitrens. Para se ter uma ideia, conforme simulação do Observatório Nacional de Transporte e Logística (ONTL), para levar uma tonelada em contêiner, por mil quilômetros, o transporte rodoviário custa seis vezes mais que o ferroviário.

Outro dado que surpreende e escancara os equívocos da matriz logística é a comparação de capacidades. Uma barcaça de 1,5 mil toneladas, por exemplo, corresponde a 56 carretas e a 15 vagões de trem.

Por isso, o coordenador do Conselho de Infraestrutura (Coinfra) da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), Ricardo Portella Nunes, confirma que as rodovias são adequadas às distâncias menores, mas a falta de alternativas diminui a competitividade frente aos concorrentes nacionais e importados.

O impacto, aponta, também gera reflexos nas commodities agrícolas, que percorrem médias e longas distâncias, com 30% do custo do combustível embutido no valor total do produto. Para Nunes, a boa notícia é que, seja por água, terra ou ar, soluções para velhos gargalos logísticos começam a emergir no horizonte do Rio Grande do Sul.

Projeto Bússola

Esta reportagem integra a série que o Grupo RBS preparou para a retomada econômica com iniciativa do setor produtivo. Quatro temas fundamentais foram mapeados e serão aprofundados pelo Projeto Bússola, que tem patrocínio do Sebrae: capacitação de profissionais, distribuição e logística, sustentabilidade e novas regras sanitárias. A série será veiculada em GZH, Zero Hora, Rádio Gaúcha, no “Gaúcha +”, e RBS TV, no “RBS Notícias”.

O que está por vir

Rodovias

  • Concessão de 1.131 quilômetros de rodovias
  • Investimento de R$ 10,6 bilhões em 30 anos
  • Duplicação de 73% da malha viária com pista dupla ou tripla

Ferrovias

  • Licitação da Malha Sul em análise
  • Investimento de R$ 10 bilhões previsto
  • Modernização de 7,2 mil quilômetros entre RS, SC, PR, e SP

Porto de Rio Grande e hidrovias

  • Mudança de gestão de autarquia para empresa pública
  • Investimentos de R$ 9,4 bilhões no distrito industrial
  • Gestão autônoma de receitas para gerar novos investimentos

Aeroporto

  • Ampliação da pista em 920 metros e novo terminal de cargas
  • Em 2022, a estrutura permitirá voos cargueiros para novos destinos
  • Mudança dará diferencial competitivo ao Estado

Reforço nas estradas gaúchas

Jefferson Botega / Agencia RBS
Duplicação da RS-287 e concessão da BR-386 são apontadas com avanços na área logísticaJefferson Botega / Agencia RBS

Luiz Afonso Senna, coordenador do Plano Estadual de Logística e Transporte (Pelt) em 2019 e atual presidente da Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados (Agergs), diz que, três anos depois do estudo que identificou gargalos e apontou soluções para o setor, algumas melhorias começam a sair do papel. O Pelt mapeou R$ 36,8 bilhões em investimentos necessários — R$ 25,8 bilhões somente em rodovias.

Segundo Senna, agora, há um ambiente favorável para que, com a participação privada no processo, seja possível superar barreiras. Um dos exemplos, destaca, é o pacote de concessões, lançado pelo governo do Estado, com aportes de R$ 10,6 milhões previstos.

Entre as metas, está a duplicação de até 73% dos 1,3 mil quilômetros ofertados. Um salto, frente ao índice atual de 12% na mesma malha viária, atualmente gerida pela Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR). O secretário de Parcerias Estratégicas, Leonardo Busatto, avalia que a manutenção privada por 30 anos garantirá fôlego para a retomada econômica no pós-pandemia.

A economista-chefe da Fecomércio, Patrícia Palermo, concorda e, por sua vez, chama a atenção para a ampliação dos investimentos públicos. Após anos penosos para as finanças, diz, em 2020 o Estado direcionou somente 1,7% da receita corrente líquida (RCL) para infraestrutura. Em 2022, os aportes devem passar para 4,3% da RCL.

— Tudo traz reflexos. E quando falamos de estradas, para o comércio, será cada vez mais importante, porque a pandemia mudou o patamar do varejo digital — comenta.

Patrícia afirma, com base em dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), que o faturamento digital, na média de 745 empresas, avançou de 9,2% (período anterior à pandemia) para 21,3% das receitas em junho deste ano. Foi exatamente o que aconteceu com a Lebes, por exemplo, que viu os ganhos com o segmento triplicarem no período.

Diretor de Operações e Logística da marca, José Rafael da Rocha conta que esse tipo de margem não acontece por acaso. É fruto de R$ 1 milhão investido em tecnologias de integração da cadeia de suprimentos logísticos.

O ganho foi possível, segundo ele, porque, em 2015, a empresa unificou cinco centros de distribuição no condomínio da GLP, na RS-118, em Gravataí. A base, que distribui para todo o Estado, conta com 20 mil metros quadrados, capacidade para 30 mil posições pallets e movimentou 30 milhões de peças no ano passado.

André Ávila / Agencia RBS
Lebes investiu em um centro de logística localizado em posição estratégica para reduzir tempo de entregaAndré Ávila / Agencia RBS

Com operação na região há 17 anos, Rocha percebe que nos últimos meses as empresas do setor deixaram de olhar para a logística como um “centro de custos” para enxergarem um “diferencial competitivo”. É que no varejo, justifica ele, o tempo de entrega se tornou mais decisivo do que o preço do produto — uma equação que requer mais melhorias em estradas e muita preparação nos centros de distribuição.

Para o diretor da Lebes, a duplicação da RS-118, entre Sapucaia do Sul e a freeway, depois de duas décadas de expectativas, é uma das gratas surpresas do período. A via, explica, permite rápido acesso à Região Metropolitana, facilidades para chegar ao Litoral e conexões com a Serra e o outros pontos do Interior.

— Percebe-se que os investimentos públicos cresceram e, como dependemos 100% desta infraestrutura provida pelo Estado, os impactos são positivos nos negócios — diz.

Desafios e expectativas

O coordenador do Conselho de Infraestrutura (Coinfra) da Fiergs, Ricardo Portella Nunes, avalia que a pressão da dependência do transporte rodoviário lança luz para seis eixos prioritários. São eles: BR-290 a BR-101; BR-116 a BR-472; BR-116/472 a BR-285; BR-386 a BR-158; BR-386/158 a BR-392; e BR-392 a BR-293.

Por essas rotas, comenta, é possível chegar aos principais polos produtivos do Estado, áreas de insumos, regiões industriais e mercados consumidores. Ainda que o diagnóstico aponte para uma malha malconservada e excessivamente utilizada, Nunes percebe avanços recentes, dentre os quais a celeridade na duplicação de trechos da BR-116.

Ele também observa que as concessões da RS-287, da BR-290 e da BR-386 trazem garantias de melhorias contínuas de longo prazo e que a duplicaação da RS-118 é uma alternativa às rodovias federais. Da mesma forma, chama a atenção para a entrega da nova ponte sobre o Guaíba — ainda que parcialmente concluída, afirma que a obra aliviou o estrangulamento com o sul do Estado.

Por outro lado, os congestionamentos diários na BR-116 sentido norte até Novo Hamburgo são considerados por Nunes um desafio. O trecho registra média de 140 mil veículos — 40% deles são de carga e transitam entre os municípios da Região Metropolitana e da Serra diariamente.

Assim como as hidrovias, a ferrovia também está cercada por expectativas. A Empresa de Planejamento e Logística (EPL), do governo federal, deverá abrir a concessão da Malha Sul, que reúne um conjunto de ferrovias com 7,2 mil quilômetros entre Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. O projeto prevê investimentos de R$ 10 bilhões para a modernização e ampliação dos trechos.

 

Fonte: GZH

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